Por Thais Rocholi

Platão falava que a imagem era imposta aos prisioneiros se diferenciando da realidade, e a incompatibilidade de suas duas formas de enxergar esses dois mundos foi o que definiu a irredutibilidade de suas duas maneiras de ser – uma, a da essência, a outra, a da aparência supostamente simples.

O conhecimento se formaria quando se houvesse passado da imagem para a essência, da aparência para a essência. A diferença quanto a isso ganhou uma força mais esclarecedora quando Aristóteles a inscreveu de forma explícita a diferença entre essas duas maneiras de ser da própria essência. Em contrapartida, a essência realizada, em que a forma (ela mesma visível supremamente visível em forma e fascínio), é absorvida em sua nitidez de contornos, e a indefinição quanto  a sua materialidade fluida e mutável. Por essas características, a imagem permite a ilusão, enquanto a forma destaca o que em cada coisa mundana há a realização de seu ato, por um tempo, presente.

A essência é então anunciada, na realização de sua forma, em ato, enquanto a mutabilidade de sua matéria permanece em poder de si mesma. Ato e potência definem, portanto, os modos de ser que nos é visível, a verdadeira essência da coisa e a aparência irreal da imagem. Entre esses dois modos de ser, não há como discutir a hierarquia de importância: Aristóteles é sempre categórico em afirmar que, mesmo temporalmente, a essência precede a potencialidade e a determina por completo.

O uso comum do que chamamos de virtual poderia até recentemente ser definido dentro deste quadro: realidade virtual que permaneceu um mundo irreal, uma duplicata ilusória ou imaginária do mundo real, o das essências na forma e na ação. A grande dominação do virtual poderia se desdobrar, mas, para a consciência comum (e de fato metafísica), só poderia fazê-lo na irrealidade, legitimante, mas inoperantemente, (como  na literatura, artes e sonhos, especulação etc.), seja ilegítima e potencialmente perigosas (ideologia, falsa ciência, etc).

O virtual, no entanto, se desvincula da essência em ação. Quando Descartes e seus contemporâneos deram a sugestão de que só conhecemos as coisas pelas ideias que delas temos (os estados mentais que as representam, no duplo sentido de representação: mostrar e acontecer substituindo a ausência por uma tenência), eles não só impuseram que toda a dificuldade se resumiria em separar as representações que mostram uma realidade daquelas que mascaram a ausência das coisas, para que a verdade se torne a luta do certo contra o incerto através do teste da dúvida.

Mas foi imediato seguir o passo seguinte: saber quem você é, significa conhecer as ideias que nos são colocadas, e saber diferenciá-las entre verdadeiras e falsas, o que se faz, portanto, no campo da imagem. Logo, saber a diferença entre aquelas que confundem ou perdem as características da coisa e aquelas que as mostram clara e diferentemente.

Essas ideias verdadeiras, portanto, não oferecem mais as formas da essência da coisa em ação, mas o que as torna certas quanto às propriedades de tal forma que podemos reconstituí-las do nosso ponto de vista, e não segundo a essência da coisa, inalcançável.

Essas ideias verdadeiras para nós, Descartes reduz aos dois critérios do que chamou de a ciência universal, que segue a sua ordem e medida da linguagem. Sabemos ordená-las e organizar a informação.

Modelos e parâmetros definem o objeto, que elimina a forma essencial da coisa, e anuncia a lacuna que Kant fixou entre a coisa em si e o fenômeno. O objeto torna-se assim como um fenômeno, de fato, se não inteiramente redutível ao que nos aparece. Nesse sentido, o objeto fenomênico pertence ao virtual: ele substitui a coisa em si pelo que o entendimento dele abstrai, que pode prever objetos ainda não confirmados pela experiência, que pode reproduzi-los identicamente em laboratório, desprezando as indeterminações de toda a realidade das coisas, que pode finalmente produzi-los e reproduzi-los em eficácia industrial, acrescentando ao mundo das coisas em si uma quase-materialidade, em princípio inteiramente determinada.

O objeto industrial alcança, de fato, a independência do virtual em relação à essência das coisas, que ele ignora e substitui. Agora retransmitida pelo objeto.

Essa primeira emancipação do virtual pela constituição de uma ciência do objeto caracteriza a modernidade (e a metafísica clássica que a provocou). Mas nosso tempo, nesse sentido pós-moderno (ou mesmo provavelmente pós-metafísico), está agora experimentando uma segunda emancipação do virtual. A primeira emancipação dependia do poder de modelagem e parametrização das ciências exatas, mas este poder tinha limites: não só os de cálculo e de recolhimento de dados, mas sobretudo o de abstracção de objetos assim reconstituídos, inteligíveis, mas, pelo menos para a grande maioria dos utilizadores e mesmo técnicos, insensíveis e ininteligíveis.

Esse obstáculo foi removido quase de repente por cálculo computadorizado e imagens eletrônicas. Confirmando a observação de Nietzsche, que a racionalidade moderna se caracteriza menos pelo triunfo das ciências do que pelo triunfo sobre as ciências do método nelas, o método produziu os meios para estender a ordem e a medida além dos limites da inteligibilidade matemática e formal, permitindo a multiplicação indefinida das medidas.

Os cálculos e parâmetros por um lado, e principalmente, por outro, transpondo os modelos explicativos em imagens. Aqueles que agora chamamos de imagens virtuais. Além disso, não se trata mais apenas de produzir modelos de objetos através da criação de imagens móveis e modificáveis ​​nas telas dos computadores (conforme a vontade de verdade, ou seja, a vontade de poder); não se trata apenas da produção industrial de imagens fictícias na indústria do entretenimento.

O virtual, ao se tornar uma imagem incondicionada e referencial, toma sua independência, e portanto se torna tão real, até infinitamente mais real que a essência dissolvida das coisas. O virtual confisca a virtude de existir produzindo-o sem condições nem limites.

Que pergunta nos coloca o império do virtual, da imagem se impondo como realidade, do espetáculo como modo de ser? Obviamente, esse é um dos nomes, ou melhor, pseudônimos do niilismo, esse horizonte verdadeiramente insuperável até que se prove o contrário, da saída da metafísica. Mas, podemos dizer mais? Você pode identificar o que faz ou faria uma exceção ao império do virtual? Para isso, voltemos ao ponto de partida: o virtual se opõe à essência como à simples potencialidade à atualidade da forma completa da essência.

Que o virtual se torne exatamente o real, nada o prova melhor do que nossa convicção de que um real ainda não imaginado, antes não imaginável, passa a nos parecer simplesmente irreal. Para ser, é preciso, como já diziam os anúncios ingênuos há vinte anos, era preciso ser visto na televisão, ou, trazendo para hoje, é preciso ser visto nas redes sociais. É certo que isso é fruto do princípio da metafísica pós-cartesiana, o da ontologia dos modernos, de que “o ser” se resume em perceber (conceber, colocar em imagem e virtualizar), ou ser percebido (concebido, modelado, parametrizado com imagem).

A autonomia do mundo virtual e depois a sua supremacia fazem assim parte da derrubada do platonismo. Derrubam o mundo ideal pelo mundo aparente, onde o segundo acaba por se apoderar do privilégio da eficácia, de que o primeiro se orgulhava com total exclusividade.

O virtual para muitos se torna o próprio nome do real, mais exatamente da eficácia das coisas reduzidas ao espetáculo, às imagens.

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