Por Thais Rocholi

Quando pensamos em mídias sociais vemos o dandismo em toda parte: na moda, na filosofia, na arte, nas exposições… Essa figura de elegância é precedida por anúncios do instagram evocando acessos para seguir a sua rede, finalmente é o renascimento do “estilo”. O extremo cuidado no vestir tornou-se, em muitos casos, uma representação da elegância mental das pessoas nas redes sociais.

Elegante, precioso, efeminado, andrógino, refinado, desapegado, solitário, inacessível e incompreendido… São muitos adjetivos ligados à pessoa do dândi que sempre provocou uma forte e instintiva antipatia, por causa da sua preocupação com a estética, sua mania elaborada, sua elegância particular e arrogante. E essa é a reação proposital do distanciamento que  ele quer provocar.

Se você for comparar outras formas de “dominação” social que o dândi desperta, basta ver o público escravo das clínicas de estética. A precisão e a perfeição proporcionada por procedimentos estéticos são as únicas armas que lhe permitem não serem marginalizados, mas pelo contrário despertam tanto a inveja quanto a aversão. Os dândis querem ocupar o lugar na sociedade dentro de uma espécie de distanciamento.

O dandismo sai a procura de romper com a igualização social. Ele tenta promover um princípio  que enfatiza  a  diversidade.  O que diferencia o  dandismo  é a  lógica  do detalhe,  como  nos  explica  Barthes: “foi  o detalhe (um  nada,  um  não sei o  quê,  um  jeito)  que  assumiu  toda  a  função  distintiva  da  indumentária  […]  o  detalhe  em princípio possibilitava transformar indefinidamente um vestuário em outro.”

Pouco se sabe, mas o movimento dândi não era apenas restrito ao universo masculino do início do século XVIII. As mesmas ideias dândi foram defendidas por muitas mulheres. O próprio Charles Dickens, romancista inglês cita as “dandizettes ” da época. Outra denominação era a de “ quaintrelle ”, que vem de Quaint, que seria bom gosto na fala e no vestir.

Por outro lado, quando vemos alguns sites como Marie Claire ou Bolsa de Mulher, essas publicações desconsideram o uso de recursos econômicos e tornam a noção de elegância isentas de qualquer resíduo supérfluo, o que parece quase espiritual, uma lembrança que foge do etéreo dandismo.

Não é por isso que não é uma ideologia, pois a intenção dessas revistas é preservar a superioridade hierárquica dos que já possuem classe por natureza, ao mesmo tempo em que vende o sonho e a esperança para seus leitores, consumidores desse tipo de publicação, de que eles poderão ascender à elegância através da aprendizagem.

Por lei, as diferenças entre ser-de-classe e aprender a ter classe são provenientes de  incorporação de um habitus. Não se ensina essência nas definições de elegância, mas  trata-se de se impor um modelo de classe que encena um teatro profissional do papel de ser uma pessoa elegante, ao passo que tentar transmitir regras para quem não teve o hábito de conviver com pessoas elegantes ou não estiveram adaptadas a conviver em ambientes sociais com protocolos de conduta, é muito difícil alcançar a elegância.

Elegância é o resultado da aprendizagem de valores e hábitos cultivados dentro de uma classe dominante ou mais equilibrada, apreendidos na socialização, pois o habitus é a maneira que você irá se orientar no mundo.

Quando você incorpora o habitus de classe, como protagonista nenhum diretor de cena de teatro irá lhe falar o que você precisa fazer ou como deva se portar no palco, há de se convir que todo protagonista conhece o roteiro, pois eles mesmos o escrevem e participam da direção de cada ato, já aqueles que atuam como vendedores de comportamento elegante devem se contentar no papel de coadjuvante.

Por mais que se tente “ensinar” elegância, ela se transforma num produto comercializado e divulgado publicamente. Elegância é uma sabedoria, considerada natural para a classe alta, que se torna maçante, dadas às suas regras que deverão ser interiorizadas por pessoas de fora do contexto elitista.

O primeiro dever do dândi é, portanto, ser o mais artificial possível. A partir daí, gestos absurdamente medidos e imitados, poses e roupas, principalmente exageradas. Não é o pudor que o obriga a esconder o corpo sob tecidos refinados, mas os dogmas estéticos.

O dândi tem amor à elegância que sacrifica a conveniência, ao luxo que desafia o conforto, transgride as regras, mas quer respeito, tudo isso tem apenas um propósito: toda a sua vida é dominada pelo sublime desejo de que tudo seja projetado para alcançar a beleza absoluta. Sem disfarces, uma beleza que cobre o defeito como se estivesse nascido para aquilo, tornando-se escravo da moda como mecanismo social.

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