Uma estranha epidemia de exuberância pitoresca afeta uma nação inteira.

Atravessamos uma fronteira invisível, não havendo diferença entre o sul e o norte dos Países Baixos, e passemos à Neerlândia, a que no século XVII e XVIII se dava o nome da sua província principal: Holanda.

Nesse país a situação era bem diversa. Nos primeiros 100 anos consecutivos à reforma, falava que as províncias estavam condenadas a acabar. Os inconvenientes com que se defrontavam eram muito sérios: uma população de um milhão e meio de indivíduos, inclusive mulheres e crianças contra o totalitarismo do império espanhol. A luta era ímpar. No final das contas, os holandeses não só lograram sair vitoriosos dessa guerra, invertendo os papéis, como também deram um golpe na Espanha que jamais voltou a ser como era antes.

O anseio de perfeição se manifestou em todos os outros campos. Quase que de forma improvisada, a Holanda se converteu numa colmeia econômica, intelectual e artística, povoada por milhares de abelhas trabalhadoras, que traziam toda sorte de criatividade ao seu apiário.

 Como os inventores da época, os artistas holandeses preocupavam-se mais com a sua arte do que com os lucros que poderiam obter. Mas é claro que todos sonhavam com enriquecimento. No entanto, a maioria deles, porém sabia perfeitamente que não havia uma probabilidade de alcançar o custo de todas as experiências vividas na arte.   Ainda assim, não desistiam. Fazer o que gostavam, era para eles, a felicidade.

Muitos desses artistas eram geniais em suas habilidades, outros dotados de qualidades positivas, precisavam de talento. Outros tinham o seu lado prático como um talento mais natural. Mas, todos, até os mais medíocres, tinham um traço comum: haviam aprendido a técnica e se revelavam pintores competentes.  Talvez o que tivesse faltado fosse imaginação e nobreza, no sentido mais humilde da palavra em si.

Os clientes faziam questão da qualidade e não queriam desperdiçar dinheiro. Dessa atitude prática dos clientes partiu como resultado que a condição social da maioria dos grandes mestres da escola holandesa  não se diferenciava muito do verdureiro ou do peixeiro que forneciam aos mesmos comerciantes as couves-flores e os peixes que iriam para suas mesas em suas existências tranquilas.

Franz Hals

Franz Hals foi uma das figuras entre os primeiros grandes pintores holandeses que se conhece, rigorosamente, porém nunca pertenceu à Escola Holandesa. Como Teniers, Adriano Brouwer, Rombout Verhulst e muitos outros, geralmente, classificados nessa escola, era oriundo da Flanders. Mas a vitória do protestantismo da Holanda setentrional  sobre os católicos do sul, obrigou-o a emigrar como tantos outros. E Hals dirigiu-se para o norte, unicamente, porque ali se lhe oferecia campo mais propício.

Nasceu em 1580 e recebeu certa instrução em Antuérpia, sua cidade natal antes de se fixar em Haarlem. Ali  estudou com Karel van Mander, o Vasari da escola holandesa, deixando o legado com todos os seus contemporâneos famosos do cavalete e do pincel. E logo se tornou retratista aceitando encomendas.

Grande parte de suas obras ainda pode ser vista aonde foi executada e, portanto, na condição mais favorável como ocorreu com os quadros de Velasquez.

Mas qual a diferença de carreira desses dois grandes artistas?

Velasquez passava o dia na corte, tratado de igual para igual pelo soberano de milhares de súditos negros ou de pele vermelha na roda dos palácios enquanto haviam numerosos mendigos às moscas.

Após uma vida de muito trabalho, o pobre Hals se encontrou num estado em que precisou entregar todos os seus bens para pagar dívidas. Restou apenas, segundo documentos da época: a mesa, uma comoda, três colchões e alguns cobertores velhos.

Enquanto Velasquez retratava as frágeis crianças, Hals tinha como modelos os honrados burgueses cheios de vida, transpirando saúde e alegria, absortos em medir a possibilidade de obter 30%  em vez de 20 % do capital empregados nas possessões coloniais.

Jovem e uma mulher em uma pousada – 1623 – Frans Hals
As meninas – Velasquez – 1656.

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