Por Thais Rocholi

Apresentarei aqui a exploração de algumas observações sobre o cinema francês de Robert Bresson que inspira de forma implícita ou explícita o cinema na história. Vou me limitar aqui a obra “Mouchette” da história da Sétima Arte.

Existe uma grande tradição no cinema cristão em retratar a compreensão cristã do ser humano, sobretudo, porque o mistério de Cristo se encarrega de toda a aventura humana, revelando sua miséria e glória, onde se procura a santificação em todas as suas dimensões.

O cinema é uma arte com uma força de grande potência no que toca sua relação com a linguagem da vida, para nos colocar em confronto com os problemas sociais e humanos.

Não posso deixar de mencionar que a arte de Bresson tem um grande rigor estético. Tal como as características próprias à expressão cinematográfica com um real impacto sobre nossas vidas, expressando uma analogia à experiência estética da qual compartilhamos.

Suas convicções revelam sua forma de perceber o mundo, numa economia de sentidos (e desejos) que podemos entender como uma experiência estética (aisthesis, que significa sensibilidade, do grego).

Assim, o Sagrado, palavra que significa “separado”, não se limita a ressaltar uma condição moral, mas sim ao que tem relação com quem nos submetemos.

O que é a lógica do sacrifício? Para Simone Weill o sacrifício do prazer não é um sacrifício quando se é movido por outro sentimento mais forte. Especialmente quando os nossos pensamentos se restringem no sentido do mal.

Portanto, filosofando com Simone Weill, “O belo é um encontro da natureza em que o espírito reconhece o seu bem. Eis os verdadeiros milagres que reconciliam os altos e baixos do ser humano.”

Mouchette é uma adolescente fechada, tristonha e inexpressiva que tem um pai alcoólatra e uma mãe, gravemente, doente, que se encontra numa sobrevida solitária. Numa noite de muita tempestade, ao voltar da escola, ela se perde na floresta.

Um caçador oferece guarita por causa da chuva e abusa dela. Traumatizada volta para casa, e testemunha a morte de sua mãe, sem ter tempo de buscar a sua proteção.

No prólogo que abre “Mouchette, a Virgem Possuída”, a mãe da protagonista está evidentemente aflita e conversa com um interlocutor invisível, perguntando-se:

“O que serão deles sem mim?”

Logo depois, ela fala sobre sua grave doença, Os sinos tocam como uma sentença de morte, a mãe de Mouchette neste instante se levanta e morre, deixando um vazio, que é capturado pela câmera enquanto os créditos e a trilha preenchem nossos olhos e ouvidos.

No começo do filme, ainda não sabemos a identidade da personagem e muito menos as pessoas à quem se refere. Tudo o  que acontece é a ausência do seu corpo, assim como a cadeira que ocupava anteriormente.

O filme apresenta pouco diálogo, Mouchette permanece em silêncio durante toda a cena, o que é importante observarmos as expressões e movimentos.

Na cena de caça, muitos caçadores saem para matar os coelhos com toda a crueldade de alma. Os coelhos morrem de complacência, diante dos vários caçadores, sem a mínima chance de escapar.

Existe uma grande agonia que é filmada em close-up. A função desta cena de agonia é traduzir a luta de Mouchette. No final do filme, a escolha de Bresson não é nos mostrar Mouchette se afogando, mas nos levar a uma transposição dada ao martírio da menina que foi alvo de tiros em toda a sua vida.

No final do filme, ainda podemos ver o vestido branco, com um reflexo branco na lagoa. Sugere-se uma redenção de morrer para si mesma e renascer para a esperança de uma nova vida. A morte ganha outro significado com a música que normalmente é alegre de Monteverdi. Um plano visual pode, portanto, mudar de direção com a música.

Mouchette é um filme projetado para os dias de hoje numa sociedade secularizada que sem dúvida não seria muito fácil de compreender que o final do filme reflete a esperança.

Na filosofia, distinguimos entre esperança concreta e esperança das coisas apenas nesse mundo, que tem uma dimensão metafísica de transcendência da alma na perspectiva espiritual.

A mensagem do filme é mostrar que as crianças podem ser vítimas de coisas terríveis, dada a uma angústia atroz entre elas, tanto mais atrozes quanto secretas.

A arte de Bresson é corajosa ao apresentar para o expectador a reflexão e a introspecção, no ambiente em que a principal liderança é lógica do entretenimento. Bresson atua, principalmente, no nosso confronto diante da realidade. E nesse absoluto momento de mistério da condição humana, somos impulsionados à gravidade da ilusão do mal imaginário. E através desse diálogo percebemos que a experiência é tão maior e cheia de graça do que podemos imaginar.

Para Bresson não seriam as ações que provocariam os sentimentos, mas o inverso. É da reflexão profunda que brota a realidade. Ele não trabalha com composições simbólicas em si, mas com relações de imagens e sons que ganham sentido no compasso esgarçado do tempo em seus dramas.

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