Dom Quixote faz uma “leitura” sobre os moinhos de vento como se fossem gigantes e, logo depois, interpreta como se fossem moinhos de vento normais, para que o leitor tenha como exemplo a ficção de forma a vivenciar a história tanto quanto o personagem.

Por Thais Rocholi

Ao se refletir sobre literatura, pensamos que nunca foi muito fácil estudar, porque sempre encontramos uma certa complexidade nos textos de ficção, cuja produção traz uma riqueza de ambiguidades, que nos remete à horas de interpretação. Mas se deixarmos o lado negativo tomar conta de nós, podemos nos esconder por trás de uma postura de indiferença. Nossa tendência é ficar estável para a palavra impressa e instável para analisar, ao que se poderia dizer que esta é a hora de processar o texto em nossa mente.

A arte da retórica é muito mais do que o manejo com as palavras, ideias e mensagens, mas é uma forma ensinar estudos de escrita e comunicação ou mesmo a fala, que conta com a retórica para transmitir com delicadeza aquilo que escapa sem tanta discrição. A retórica é uma via de mão dupla que sempre envolverá o emissor e o receptor do discurso.

O livro Dom Quixote sem sombra de dúvida nos surpreende quando acreditamos que o episódio do moinho de vento está no centro. Para começar, é um pouco enfadonho, a nossa tendência as vezes é relegar, mas é preciso começar com a primeira página sentado numa mesa.

Como no livro, você sentirá fortes doses de rebeldia, de humor, de paródia, até que organize toda a trajetória narrativa, cuja explicação revela o significado dos termos já mencionados no texto. A escrita é inscrita na narrativa, obviamente, naquilo que lemos. Num golpe de mestre, Cervantes faz com que o narrador inicial, um de um corpo de personas narrativas, insista no fato de que os episódios contados formem a “verdadeira história” de Dom Quixote.

Logo no começo, passa a reconhecer e a refutar, a diferença aristotélica entre a objetividade da história e a subjetividade da ficção. O narrador defende a verdade absoluta, enquanto que em outros aspectos há indicação de que a verdade é relativa.

Junto com sua nostalgia alimentada e eliminada pelo romance cavalheiresco, Dom Quixote é povoado por personagens emblemáticos de precedentes cômicos, chulos, pastorais, teatrais e poéticos. O analfabeto Sancho Pança pode ser considerado um exemplo de legado da cultura oral. A sobrinha e a governanta de Dom Quixote, junto com seus amigos, o padre e o barbeiro, determinam que os livros da biblioteca do cavaleiro sejam queimados, classificando-os como ofensivos, que nos remete à crítica literária e alegoria da Inquisição.

Dom Quixote é uma homenagem à todos nós que desejamos aprender literatura e interagir intimamente entre duas personalidades que ilustram a busca do Eu no Outro, tal como o relacionamento entre os personagens de Dom Quixote e de Sancho Pança.

Dom Quixote reflete o início da Espanha moderna: sua ânsia para a unidade política e religiosa, sua obsessão com a pureza do sangue e regras que denotam à honra, sua rígida censura do discurso e da arte, suas divisões sociais e de classe, seus problemas econômicos, e sua projeção de uma sensibilidade barroca, entre outros elementos.

Um novo mundo, uma nova ciência e um novo embate religioso, a Reforma contra uma Contra-Reforma, acompanham mudanças que deixam a sociedade cada vez mais complexa, com mais acesso à leitura e à discussão. Estas são algumas características do cenário de Dom Quixote que estão codificados no texto. De uma forma ou de outra, Dom Quixote é, inquestionavelmente, uma imersão em literatura, retórica, poética, história, teologia, ética, sátira e o poder da imaginação.

Dom Quixote apresenta a própria teoria prática, uma síntese sobre leitura, escrita, vida e arte. Uma sensação de lacunas preenchidas. Logo, você começará a formar seu plano de leitura. Cervantes reconhece o passado cultural e prevê o futuro do romance e da teoria.

Don Quichotte, manuscrito original do piano e partitura vocal com as anotações de Massenet.

” Dans le chemin raviné de la vieille forêt. C’est la nuit. Une nuit étoilée très claire.

Jupiter brille dans tout son éclat.

Don Quichotte repose, la tête contre le tronc d’un chêne.

Sancho le veille comme un enfant ; il attise un feu de sarments qui réchauffera son “grand”.

“No caminho esburacado da velha floresta. É noite. Uma noite estrelada muito clara.

Júpiter está brilhando.

Dom Quixote está com sua cabeça contra o tronco de um carvalho.

Sancho o vigia como uma criança; ele acende um fogo de ramos que vai aquecer seu ‘grande’ “.

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