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@thaisrocholi

Por Thais Oliveira

Uma frase arrebatadora de Roger Scruton: “Por meio da beleza, implantamos em nosso entorno o sentido de pertencimento que nos vem dos outros; quando a relação eu-você floresce, o outro é trazido para nossas vidas.”

Desde as suas origens gregas, a tradição filosófica jamais deixou de pensar sobre a questão do amor.  Tema de suma importância de nossa história intelectual. No “Banquete” de Platão, a experiência do amor se canaliza num processo de elevação do particular  para o universal, do apego ao sensível  para o processo de emancipação rumo ao plano espiritual-inteligível,  num aumento gradativo introduzindo a contemplação do Belo.

Baudelaire foi como um exemplo do primeiro representante da modernidade estética por ter experimentado os sintomas da superficialidade que marcou o período histórico de sua época, ao mesmo tempo que critica tudo o que percebe nas mudanças da forma com que a sociedade se organizou com suas tecnologias, rebelde e promíscuo vivia uma vida desregrada e sem moral, cujos efeitos se fizeram sentir em meio a coletividade e produções artísticas.

Na concepção de Baudelaire tal “Modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente”. Transitoriedade em que o artista moderno diz reconhecer a beleza da melancolia de sua obra. Foi contra a concepção estética tradicional, para a qual o belo se identificaria com o universal e imutável, passando a representar em seus escritos toda sua vivência ao relatar os fenômenos ocorridos na moda, nos costumes da época, em suas habitações e trivialidades.

Sua visão era deturpada e infeliz da realidade, era como se os objetos passassem a adquirir vida própria e se tornassem mais importantes do que a singularidade humana, totalmente subjugada pelo mecanismo social do dinheiro. A vida na sociedade pós-moderna de hoje é uma versão perniciosa e precária nas condições de incerteza constante.

Porém, acredito que nos tempos de hoje, nossa natureza deve estar mais vigilante aos contextos desconhecidos, assimilar tudo, fornecendo informações ao córtex reptiliano a estar alerta aos perigos para fugir dos predadores!

Mas mesmo diante das frustrações, os poetas românticos nos movem a formar conceitos relacionados  aos ideais de sujeito, natureza e, principalmente, beleza. A estética romântica foi consolidada ao se compreender o espaço de cada um dentro dos aspectos da natureza e da sociedade, sobretudo quanto a tudo que se refere aos seus sentimentos. A natureza reflete as emoções tanto de tristeza quanto as conquistas e alegrias.

Não gostaria de ver nenhuma expressão estranha no rosto de alguém por eu citar o livro “Elogio ao amor” de Alain Badiou e Nicolas Truong, mais especificamente o capítulo Os  filósofos e o amor, não me associem a comunista, por favor! Não defendo partido político e também não os considero pecadores indesejados, todavia, o capítulo aponta que há diferentes visões à expressão “amor verdadeiro”. Primeiro, Platão fala da construção amor-ideia mediante a relação entre mundo-sensível e mundo inteligível: o primeiro mundo é formado por ideias, lugar de perfeição e de beleza; o segundo, temos os objetos concretos e reais, o mundo como nós conhecemos, que não é nada mais, nada menos que uma projeção do primeiro, e, por isso mesmo, imperfeito.  Logo, o amor que uma pessoa sente por outra, não passa de uma manifestação particular e imperfeita de algo superior, universal e perfeito: o amor-ideia.

Um pouco pode fazer muito por nós, pois quanto mais o amor por uma pessoa abrir mão de prazeres físicos-sensoriais e se aproximar do amor-ideia, maior e mais puro será.

Neste livro, os autores ressaltam que o amor acontece quando um aborda o ser do outro, quando há uma entrega mútua e desinteressada. No amor, a conciliação do outro tem valor em si. Possivelmente, o amor verdadeiro é guiado pela busca do outro, tal como ele se apresenta, sem querer impor regras e comportamentos. Temos que cavar tempo para relaxar, aceitando o outro sem interferir em seu emocional, possuindo sem dominar. O amor verdadeiro, o amor-ideia  refletido por Platão consiste nas emoções que ambos amantes sentem, na amizade, na intimidade, tudo é recíproco ao ponto de um não querer se separar do outro, nem por um pequeno momento. Trata-se de se gostar e de se sentir completo na companhia  desse alguém.

As histórias clássicas de amor demonstram sua superficialidade ao transmitir a ideia do “viveram felizes para sempre”, como se a efetivação matrimonial da relação amorosa culminasse na supressão de todas as adversidades existenciais, talvez seja justamente a partir desse momento que todos os percalços surjam, pois a convivência com o outro é a prova maior da suportabilidade e condição indispensável para que possamos desenvolver uma experiência genuína.

 

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