simone weil

Por Thais Oliveira

Toda mulher (e homem também) deveria saber que a felicidade não é uma questão de sorte, mas o que fazemos de nossas vidas!  Isso diz respeito a contarmos os nossos dias para que alcancemos coração sábio.  Bom é sabermos associar o sentimento ao tempo, cultivando a maneira como vivemos nas horas, nos dias, nos meses e anos.

Ler os Escritos de Simone Weil (1909-1943) é como ser atraída por uma luz que nos dá estímulos para sairmos da escuridão: esse reflexo ilumina lugares  que jamais poderiam ser vistos se não houvessem tais estímulos. É verdade também que sentimos um certo incômodo quando essa luz é muito forte. Acredite-me, ninguém fica totalmente passivo. É como experimentar a plenitude perpétua do prisioneiro da Alegoria da caverna, capaz de debulhar as nossas certezas.

Na verdade, não conseguimos conceber as ideias dessa filósofa francesa sem algum tipo de espanto, pois a atração e o fascínio que ela desperta em nós, passa a nos levar a uma negação ou indignação. Essa personagem não deixa ninguém indiferente diante de seu inconformismo e radicalidade.

Foi a primeira mulher na França a obter o título de agregação em Filosofia na École Normale Supérieure,  sendo classificada à frente da famosa Simone de Beauvoir, o fato de ser uma ativista militante social são termos que jamais poderiam definir a rara consagração de vida que levou essa mulher de ascendência judia a  mesclar o trabalho de  docência com um persistente trabalho voluntário, pedagógico/político, em meio aos operários, mineiros e camponeses, abrindo mão de momentos de sua curta e acidentada existência.

Sua obra não está desvinculada de sua vida e como para nossa tristeza é uma pensadora pouco conhecida nos meios acadêmicos filosóficos no Brasil, decidi escrever este pequeno comentário  sobre ela. Raro ver algum pensador com  a vida e a filosofia tão estreitamente associadas, proporcionando coerência nos atos, pois Simone Weil escreve aquilo que vive e cobra esta mesma coerência daqueles que escrevem, o que nos deixa as vezes constrangidos com nossa própria ignorância.

Aos vinte e cinco anos, após conseguir uma licença de um ano do seu trabalho como professora de filosofia, ela resolve deixar sua vida e com a ajuda de um amigo  passa a trabalhar numa fábrica da Renault como operária. Considerando que praticamente intelectual nenhum de esquerda  recomendava fazer no universo da classe trabalhadora, e de fato, foi um grande impacto na vida de Simone Weil, pois ela antes de pensar a questão do trabalho dos operários, decidiu assumir a tarefa assustadora de sentir na carne.

Para uma amiga dela, isso iria comprometer  sua promissora carreira intelectual com as adversidades da vida operária – “Afinal, por que faz isso com o que você tem a dizer?” – disse a amiga. Em resposta, ela fala: “Há coisas que eu não teria podido dizer se eu não tivesse feito isso.” (Weil, apud Bosi, E., 1996, 64, grifo nosso), foi o que respondeu Simone apontando para a ética do pensamento pela qual se fundamentava sua raiz.

Foi com base no prisma espiritual que Simone Weil passou a determinar o alcance do engajamento social. Sim! E se não for suficiente, foi com paixão solidária que se enraizou o projeto revolucionário; foi com o espírito voluntarioso que se traduziu o ativismo e não o inverso.

Simone Weil saudou as raízes das necessidades da alma, dando vislumbres tratados,  talvez, como os mais importantes e os mais desconhecidos de todas as necessidades. Mesmo reconhecendo ser uma das necessidades “mais difíceis de definir”, assim  ressalta: “Um ser humano tem raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva certos tesouros vivos do passado e certos pressentimentos do futuro.” E esclarece dentro do espírito de uniões improváveis a funcionalidade que para alguns possa não ser adaptativa:

“Uma participação natural, ou seja, ocasionada automaticamente pelo lugar, nascimento, profissão, meio. Onde cada ser humano precisa ter múltiplas raízes. Precisa receber a quase totalidade de sua vida moral, intelectual, espiritual, por intermédio dos meios dos quais faz parte naturalmente.” (Simone Weil)

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